Muito se fala todos os dias sobre a evolução dos indicadores econômicos do Brasil ao longo das últimas décadas. Sabemos que houve uma grande explosão de crescimento do PIB nos anos 30 e 70 do século passado, devido à momentos de grande investimento em formação bruta de capital fixo (máquinas e equipamentos) e infraestrutura. Contudo, um dos indicadores que insistem em não avançar positivamente é a produtividade do trabalho.

Por que será que isso acontece?

De uma forma simples, a produtividade do trabalho de um país pode ser definida como a capacidade de entregar mais quantidade de algo usando a menor quantidade de recursos possível. Não temos conseguido melhorar esse indicador, mesmo com a tremenda onda de informatização e digitalização dos negócios e do governo vividas desde os anos 1980; mesmo com o aparecimento da microinformática, dos computadores pessoais, dos notebooks e mais recentemente dos smartphones e tablets; mesmo com a interligação de tudo e todos pela internet, onde o os negócios ocorrem em todas as direções, seja B2B, B2C, C2C, *2*.

Qual o problema? Onde está o pulo do gato que falta?

Sabemos as respostas que sempre são ventiladas. Falta educação básica e técnica, falta liberdade econômica, a carga tributária é absurda, o tamanho do estado na economia suga todos os recursos para se sustentar como um buraco negro suga a matéria no espaço. Tudo isso é verdade, só que se tratam de problemas mais estruturais e que levam tempo, pelo menos o médio prazo, para que sintamos os efeitos de soluções reais e efetivas que sejam aplicadas. Então, o que podemos fazer agora pela produtividade do trabalho? Com os recursos humanos, financeiros e arcabouço legal que temos hoje?

Existe sim algo a ser feito e que pode dar os resultados iniciais nas primeiras 8 semanas de investimento de recursos humanos e financeiros. Trata-se da combinação de 4 tecnologias que já são utilizadas há muitos anos em países desenvolvidos e que trazem grande impacto positivo na produtividade do trabalho. Ocorre que, mesmo lá fora, essas tecnologias nem sempre são utilizadas de forma combinada como estamos considerando nessa análise.

Vamos conhecer.

A primeira delas é a tecnologia de BPM (Business Process Management ou Gerenciamento de Processos de Negócio). Nela, analistas de negócio de TI em conjunto com os usuários finais de negócio que conhecem as rotinas da empresa, desenham juntos os processos. Processos são formados por uma sequência de tarefas organizadas por raias, como numa piscina olímpica, identificado “quem” faz “o que” e em que “sequência”.

A beleza dos processos é que eles quebram os silos de informação porque perpassam os diversos departamentos das empresas. Além disso, eles fazem a gestão andar porque orquestram ou automatizam tudo. Você não precisa mais ir navegar em centenas de opções de menu para procurar a funcionalidade que precisa. Uma vez que o processo foi iniciado, as tarefas passam a ser distribuídas automaticamente para os que precisam resolve-las. Acabou aquela história de terminar sua tarefa e enviar um e-mail ao colega de trabalho, avisando que agora ele já pode dar sequência ao trabalho.

Tudo isso é automático e pode ser acompanhado pelo gestor que passa a saber informações preciosas como quantos processos foram abertos, quantos já passaram de uma determinada fase, quem é a pessoa que tem mais tarefas atrasadas, quantas e quais tarefas foram automaticamente passadas para outra pessoa porque a original não conseguiu concluir no prazo e assim por diante.

Mais eficiência e menor conhecimento de programação

A segunda tecnologia é a de Low-code ou em português pouco código. Isso significa desenvolver aplicações que podem funcionar em qualquer dispositivo, seja desktop, notebook, tablet ou smartphone e em qualquer sistema operacional, fazendo 80% a 90% do trabalho arrastando e soltando componentes visuais com o mouse e só 10% a 20% de codificação ou programação de computador.

Essa é uma revolução tão grande que pode ser comparada ao que ocorreu no início do século XIX quando as previsões de Malthus eram de que a humanidade morreria de fome pela falta de comida, considerando a taxa de crescimento populacional versus a capacidade produtiva da época. Malthus não contava com o tremendo avanço de produtividade agrícola ocorrido logo depois, com o uso das tecnologias de rotação de solo e de culturas, entre outras.

É sempre assim na história da humanidade. Quando algo está chegando no limite, ocorre uma revolução de produtividade que permite aos seres humanos fazerem muito mais no mesmo tempo disponível e com menos recursos. Essa é uma revolução que as ciências econômicas chamam de tecnológica, ou seja, advinda de novas ferramentas, metodologias e técnicas de produção.

E não é isso que estamos vivendo agora?

Segundo grandes institutos internacionais de pesquisa de mercado, por volta do ano de 2020 vão faltar 500 mil desenvolvedores de TI no mundo. Que número altíssimo num momento onde empresas de todos os ramos de atividade se definem como sendo também empresas de software. Bancos estão dizendo isso, indústrias de bens e produtos de consumo estão dizendo isso, o varejo está falando assim também, além, é claro, de empresas óbvias dessa categoria como o Uber que é a maior empresa mundial de transportes de passageiros sem ter sequer um carro em seus ativos.

Desta forma, teremos uma geração inteira de novos desenvolvedores que serão de 10 a 20 vezes mais produtivos do que os que utilizam as linguagens de programação tradicional, como o Java ou o C#. Equipes de 10 desenvolvedores podendo produzir os mesmos entregáveis das equipes com 100 ou 200 pessoas usando a tecnologia tradicional. Que mudança de paradigma!

Case Management

A terceira tecnologia que compõem essa revolução é a de Case Management ou gerenciamento de casos. Imagine os seriados de investigação criminal que acompanhamos na Netflix ou no Prime. Quantos processos, quantas atividades, quantas imagens, quantos documentos, quantos fatos ocorrem dentro de uma mesma investigação. Como é incrível quando vemos os investigadores, pelo menos nos filmes, fazerem perguntas imprevistas sobre um caso e terem a resposta instantânea sempre fornecida por um nerd da TI que faz parte da equipe!

Pois é, parece coisa de cinema, mas já não é mais. O Case Management faz exatamente isso. Aglutina processos, pessoas, dados, sistemas diversos e heterogêneos debaixo de um guarda-chuva só e de uma interface de usuário única que funciona em qualquer plataforma. O usuário já não precisa mais entrar em 22 sistemas diferentes e tê-los abertos ao mesmo tempo para prestar um bom atendimento ao cliente. Tudo fica unificado numa só interface, um só modelo de dados conceitual, uma só orquestração de processos. O cliente abre um caso na empresa, seja uma reclamação, elogio ou pedido de serviço ou informação e esse caso é tratado como uma coisa só, operado num lugar só e estudado num lugar só. Como isso faz avançar a percepção real de qualidade que o cliente tem quando é atendido.

E por fim, o RPA

A última das tecnologias é o RPA (Robotic Process Automation ou Automação Robótica de Processos) onde as tarefas repetitivas de entrar num sistema, copiar dados para uma planilha, depois para outros sistemas, depois colocar tudo num e-mail e enviar para alguém, passam a ser executadas por um robô de software, um verdadeiro trabalhador digital que libera o ser humano para se dedicar às tarefas que exigem criatividade, inventividade, proatividade e comprometimento, ou seja, um ser humano. O robô de software vai entrando nos sistemas e nos aplicativos como planilhas eletrônicas e editores de texto e preenchendo as informações e gerando tudo que é preciso. Se é repetitivo e pode ser “coreografado”, o robô pode fazer.

Por todas essas questões, esse é um momento muito precioso para pessoas e empresas. Essas 4 tecnologias não são tão novas assim, mas o seu uso combinado e intensivo é algo mais recente no mundo e ainda muito pouco utilizado no Brasil. Essa é uma alternativa rápida e eficaz para elevar a produtividade do trabalho e para gerar mais valor em nossa economia e para seus agentes que acabam sendo as pessoas e as empresas. Esse é um caminho para tirar esse indicador da inércia que vem experimentando por tantas décadas e trazer o efeito multiplicativo de prosperidade para o nosso país.

Gilberto Costa
Diretor de Inovação da AnalisaBR

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